Domingo, 30 de Agosto de 2009

Um Toque de Jazz em Setembro

 

 

No início de uma nova temporada de Outono/Inverno de Um Toque de Jazz, começará também um novo ciclo de Concertos Europeus no qual se darão frutuosos encontros entre músicos de várias nacionalidades, em particular europeus e norte-americanos.

 

Do cartaz que se anuncia prometedor, desde logo porque abarcando várias tendências estéticas do jazz actual, podem destacar-se um concerto com a presença de vários cantores norte-americanos famosos convidados do cantor belga David Linx;  o quinteto The Good Boys da pianista japonesa Aki Takase ou o septeto Bar Kokhba do multi-instrumentista norte-americano John Zorn.

 

Quanto a uma certa invulgaridade instrumental podem sublinhar-se um dodecateto italiano de trombones (e afins), liderado pelo norte-americano Gary Valente, e ainda o saxofonista belga Frank Vaganée ao lado de um quarteto de cordas holandês: o Zapp Styring Quartet.

 

Um Toque de Jazz é transmitido aos domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2, podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui, via webcast. Após a sua transmissão, os programas passam a estar disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2.

 
 

Domingo, 06.09.09 –  Concertos Europeus (1) –  O quinteto dos saxofonistas Bart Defoort (Bélgica) e Emanuele Cisi (Itália),  com Ron van Rossum  (piano),  Nic Thys (contrabaixo) e Sebastiaan De Krom  (bateria)  num concerto realizado no Festival de Jazz de Bruges (Bélgica) em 02.10.08;  e o decateto de trombones Slide Family, dirigido por Gary Valente  (EUA),  com Mauro Ottolini, Giuseppe Calomosca, Rudi Migliardi, Massimo Zanotti, Simone Pedersoli, Marcello Rosa, Hannes Mock, Massimo Morganti, Tony Cattano e Peter Cazzanelli num concerto realizado em Salzburgo  (Áustria)  em 24.08.08.  Gravações Eurorádio.

 

Domingo, 13.09.09 –  Concertos Europeus (2)  – O saxofonista-alto Frank Vaganée (Bélgica) com o Zapp String Quartet  (Holanda)  num concerto realizado no Concertgebouw de Bruges (Bélgica) em 05.10.08.  Gravação Eurorádio.

 

Domingo, 20.09.09 –  Concertos Europeus (3) –  Os cantores David Linx  (Bélgica)  e Marc Murphy, Sheila Jordan, Giacomo Gates e Deborah Brown  (EUA)  com Paolo Fresu (trompete), Kalman Olah (piano), Cameron Brown (contrabaixo), Dré Pallemmaerts (bateria) e Sal La Rocca (contrabaixo) num concerto realizado no Centro Cultural de Dinant (Bélgica) em 30.09.07;  e o trio da pianista Rita Marcotulli  (Itália),  com Anders Jormin e Anders Kjelberg (Suécia)  num concerto realizado no Concertgebouw de Bruges (Bélgica) em 02.10.08.  Gravações Eurorádio.

 

Domingo, 27.09.09 –  Concertos Europeus (4) –  O quinteto The Good Boys de Aki Takase  (piano),  com Rudi Mahall (clarinete-baixo),  Tobias Delius  (sax-soprano, tenor e clarinete),  Joannes Fink  (contrabaixo)  e Heinrich Köbberling  (bateria)  num concerto realizado em 28.08.08;  e o septeto Bar Kokhba de John Zorn  (EUA) com Mark Feldan  (violino), Erik Friedlander  (violoncelo), Greg Cohen  (contrabaixo),  Marc Ribot  (guitarra),  Joey Baron  (bateria)  e Cyro Baptista  (percussão)  num concerto  realizado em 31.98.98, ambos no Festival de Jazz de Willisau  (Suiça).  Gravações Eurorádio.

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 19:33
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Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Entre o sizo e o gozo

 

 

Já não é a primeira vez que me vejo a pensar:  há concertos que não deveriam ter encore, quer dizer, há ocasiões em que, tendo tudo já sido dito  (e ainda por cima bem ou quase sempre bem),  não deveríamos forçar os músicos a regressar ao palco para artificialmente voltarem a entusiasmar-se  (quantas vezes forçando o artificial entusiasmo com que disfarçamos um certo sentimento de culpa),  isto porque, regra geral, pouco de melhor ou de igualmente importante terão eles inspiração ou ânimo para nos voltar a ofertar.

 

Tal acontece, sobretudo, com música particularmente densa, pensada, complexa, cujo intenso e exaustivo processo de criação pouco a pouco se vai articulando, digamos assim, a partir do "nada", num processo "desapoiado", ou seja, do qual estão ausentes certas mnemónicas que costumam servir de álibi, repouso passageiro ou ponto de encontro (entre os próprios músicos ou entre estes e o público)  nos momentos em que a criatividade é tocada pelo impasse, pela menor desenvoltura e rasgo, ou mesmo pelo esgotamento.

 

O problema é que, entre nós, concerto que não tenha encore não é concerto que se preze; e mais uma vez isso aconteceu com a actuação do quarteto Buffalo Collision, um dos dois excelentes concertos a que tive o prazer de assistir na segunda etapa do último Jazz em Agosto e que bem teria passado sem o forçado e frágil encore que acabou por ter.

 

Fotos: cortesia © Joaquim Mendes / Fundação Calouste Gulbenkian  

 

Dois ou três aspectos singulares me parece essencial sublinhar na música que nos foi proposta pelos quatro elementos do quarteto, nenhum deles particularmente alinhado em correntes estanques ou "arregimentadas" num sentido estético único, como geralmente acontece  -- basta conhecer-lhes os nomes, descobrir-lhes as ligações, saber-lhes os agentes, ler-lhes os críticos --  com os músicos frequentadores de certos festivais, sejam quais forem as etiquetas que se lhes colem.

 

E foi precisamente esta ausência de "sentido estético único" que constituiu uma primeira qualidade do concerto dos Buffalo Collision:  estavam ali músicos simultaneamente "de dentro" e "de fora" do jazz,  (em termos de cultura assimilada, interiorizada e praticada),  abertos e disponiveis às influências e contaminações mais díspares e sabendo incorporá-las no jazz multifacetado que nos propunham.

 

Um segundo aspecto interessante e inesperado  (para quem não lhes conhecia obra gravada nesta formação)  foi a total ausência da composição previamente escrita, ainda por cima uma componente na qual Tim Berne é particularmente notável e inovador, sendo as três peças propostas inteiramente fruto da justaposição e interacção de vários contributos individuais, mais ou menos preponderantes, que iam livremente confluindo para o erguer de uma obra eminentemente colectiva.

 

Por último, chegados através desta segunda observação à conclusão de que se tratou de música por inteiro improvisada  -- embora curiosamente tonal ou centrada sobre a atracção da(s) tonalidade(s) em movimento perpétuo --  foi possível também concluir, com imensa surpresa, que dela estiveram arredadas quaisquer tentações de circunscrevê-la aos processos declaradamente aleatórios e sonicamente desbragados da improvisação livre evocativa do antigo free jazz ou às tendências mais esotéricas e desenraizadas, ligadas às novas músicas de origem sobretudo europeia, pelo que só se pode saudar mais este caminho de síntese, entre outros que todos os dias nos surpreendem no fervilhar experimental do novo jazz que vai nascendo.

 

 

Já na véspera deste concerto me impressionara muito favoravelmente a banda de metais que o trompetista Dave Douglas trouxe consigo --  para uma actuação de certo modo "desalinhada" com o que é por hábito expectável ouvir-se neste mesmo Jazz em Agosto.

 

Dedicada a Brass Ecstasy  (como o próprio nome da banda deixa supor)  a essa importante personagem fundadora da AACM: Association for the Advancement of Creative Musicians que foi o trompetista Lester Bowie e, sobretudo, à fortíssima e nunca demais exaltada herança musical que nos deixou através  (entre outros grupos)  da sua Brass Fantasy, este novo quinteto de Dave Douglas pretende continuar, precisamente, a evocação da tradição das bandas de metais e sobretudo do espírito festivo e contagiante de uma música bem singular na cultura popular norte-americana.

 

Ao fazê-lo, porém, e procurando certamente seguir o caminho ensinado pelo próprio Bowie, Douglas é suficientemente aberto e multidisciplinar para tornar a sua Brass Ecstasy em muito mais do que uma simples "banda de repertório", invocando os blues, os rhythm' n' blues, as marchas de rua, o gospel ou outras formas de música popular como "formato instrumental e tímbrico" que conjuga com a subversão desse próprio formato ou, sobretudo, dos conteúdos musicais que esse "formato" poderia implicar, se entendidos de uma forma passadista, oportunista e com insinuantes preocupações em relação ao gosto do público.

 

Continuando a ser para mim hoje claro que a prolífica e originalíssima trajectória criativa da carreira de Dave Douglas, como pensador da música e como instrumentista, o terá tornado uma das personalidades mais importantes do jazz dos anos de 1990 em diante  -- bastando para tal recordar obras de referência absoluta que nos vem deixando em disco (1) --  não é menos verdade que a polivalência e a multitude dos seus projectos tão diversos, revelando por um lado exigência e disponibilidade conceptual que parece não terem limites, se arrisca a arrastar consigo uma estudada postura de concensualidade ou a gerar efeitos de transversalidade em relação aos públicos do jazz, com a consequente multiplicação e pulverização da uma frenética actividade profissional.

 

Mas o talento de que dá mostras em quase tudo o que toca com a individualidade da sua visão criativa, comprova como não tem existido até agora esse risco  (muito maior)  da superficialidade e do facilitismo, uma fatalidade claramente afastada no decorrer da actuação desta Brass Ecstasy.

 

Tendo o concerto começado de forma algo insegura  -- porque parecendo os músicos pouco concentrados, a começar pelo líder --  logo uma longa peça dedicada a Enrico Rava, construída em várias secções e amplamente devedora do sentido melódico do evocado, tocou a reunir, vindo recolocar as coisas nos eixos!

 

Seguir-se-iam, como pontos altos do concerto, o dramatismo de Prayer for Baghdad  (com um belo solo de Vincent Chancey na trompa), o tom de festa e da improvisação colectiva de Bowie  (com o trombone de Luis Bonilla e a bateria de Nasheet Waits a positivamente enlouquecerem)  e, ainda, o humor sarcástico de Twilight of the Dogs  (dedicada a George W. Bush)  ou a batida funk de Mr. Pitiful (Ottis Reding).

 

Que melhor gozo se poderia esperar, nesta fase final do Jazz em Agosto?

___________________________

 
(1) Paralell Worlds (Soul Note, 1993)

   Stargazer (Arabesque, 1997)

   Charms of the Night Sky (Winter & Winter, 1998)
   Moving Portraits (DIW, 1998)

   Convergence (Soul Note, 1999)

   Songs for Wandering Souls (Winter & Winter, 1999)
   A Thousand Evenings (RCA, 2000)
   Strange Liberation (RCA, 2004)

   Keystone (Greenleaf, 2005)

   Meaning and Mistery (Greenleaf, 2006)

   Moonshine (Koch, 2008)

   Spirit Moves (Greenleaf, 2009)

 


Jazz em Agosto 2009
Auditório ao Ar Livre
Fundação Calouste Gulbenkian
 
Quinta-feira, 6 de Agosto
Dave Douglas & Brass Ecstasy
Dave Douglas (trompete)
Vincent Chancey (trompa)
Marcus Rojas (tuba)
Luis Bonilla (trombone)
Nasheet Waits (bateria)
 
Sexta-feira, 7 de Agosto
Buffalo Collision
Tim Berne (sax-alto)
Hank Roberts (violoncelo)
Ethan Iverson (piano)
Dave King (bateria)
 

 
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 17:00
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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Festival de Jazz de Newport... ao vivo! (Take 2)

 

 

Se esteve distraído este fim de semana  -- ou ainda estava em férias, longe do computador (parabéns!) --  pode agora ouvir nas calmas, sem necessidade de fazer noitadas ou muitas contas aos fusos horários, alguns dos concertos realizados na edição 55 do Festival de Jazz de Newport deste ano e de que aqui lhe falei há dias.

 

Sem mais comentários, eis a lista de alguns nomes que pode ouvir, nalguns casos podendo já descarregar os respectivos ficheiros MP3 para o seu computador, noutros casos ouvindo em live audiostream:

 

Esperanza Spalding

 

 

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Joe Lovano "Us Five"

 

 

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Brian Blade & The Fellowship Band

 

 

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Rudresh Mahanthappa's Indo-Pak Coalition

 

 

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James Carter Organ Trio

 

 

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Miguel Zenon Quartet

 

 

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Steven Bernstein's Millenial Territory Orchestra

 

 

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The Bad Plus with Wendy Lewis

 

 

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Vijay Iyer Trio

 

 

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Dave Brubeck Quartet

 

 

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Cedar Walton All-Stars feat. Lew Tabackin & Curtis Fuller

 

 

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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:34
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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Festival de Jazz de Newport... ao vivo!

 

 

Se quer assistir ao vivo a alguns dos mais esperados concertos do Festival de Jazz de Newport deste ano  -- a realizar já neste fim de semana de 8 e 9 de Agosto --  visite com frequência as páginas dedicadas ao evento da rádio pública norte-americana, NPR - National Public Radio, que, em conjunto com as suas associadas WBGO e WGBH, irá apresentar excertos do festival, via live broadcast ou webcast.

 

Entre os vários nomes que este ano preenchem o cartaz do Festival de Jazz de Newport, convém destacar  (entre outros)  os dos veteranos Roy Haynes, Dave Brubeck ou Tony Bennett;  outros músicos de primeiro plano, como Branford Marsalis, Joshua Redman ou Christian McBride com os seus grupos;  e ainda outros representantes dos mais variados campos estéticos hoje presentes na cena actual do jazz, como Rudresh Mahanthappa, Esperanza Spalding, Ken Vandermark, The Bad Plus, Vijay Iyer, Miguel Zenon ou Steven Bernstein.

 

Não se esqueça, portanto:  visite este link ou este link ou ainda este (correspondente ao site do próprio festival), confira as horas dos concertos, faça as contas em relação aos fusos horários e siga em directo  (ou em diferido)  alguns excertos de um dos mais antigos e famosos festivais de jazz em todo o mundo.


 

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:07
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2009

O estado do tenor... ou dois sábados bem passados em Serralves

 

 

Não pude deixar de me lembrar de uma das mais entusiasmantes gravações de Joe Henderson  -- precisamente The State of the Tenor, editada aliás em dois volumes --  quando procurava um título para esta crónica dedicada aos dois saxofonistas-tenores  (Donny McCaslin e Bennie Wallace)  que preencheram o cartaz dos concertos a que este ano pude assistir da série de três que ilustraram mais uma edição de Jazz no Parque, uma das mais prestigiadas realizações jazzísticas todos os Verões localizadas a Norte do país, no court de ténis do belíssimo e calmo Parque de Serralves, no Porto.

 

Não que os dois músicos presentes este ano neste ciclo tenham esgotado o cardápio de possibilidades técnicas e tendências estéticas que hoje coabitam no jazz actual e num instrumento de prática tão ampla quanto é a do sax-tenor;  mas porque, mesmo exprimindo-se em linguagens muito divergentes, eles acabaram por nos mostrar como se pode nos nossos dias dar largas tanto à firme demonstração de uma cultura jazzística de tronco comum, que parte das principais matrizes estilísticas que marcaram o percurso histórico do mais completo membro da família dos saxofones, como à forma bem distinta de encarar, também em termos composicionais e improvisacionais, o desenvolvimento desse percurso e dessa tradição.

 

É verdade que, não apenas em termos de geração como no plano programático, os dois concertos teriam de ser muito distintos um do outro, assim se completando e complementando de forma entusiasmante.  No caso do veterano Bennie Wallace, que actuou no sábado 1 de Agosto, porque o seu repertório era, por assim dizer, assumidamente sujeito a mote, ou não fosse ele dedicado em exclusivo à obra de Thelonius Monk, o que, mesmo implicando e convocando uma visão pessoal e criativa da música deste, não poderia  (deveria)  conduzir ao afastamento total e irresponsável de um dado modelo, ainda por cima personalizado em extremo, como resulta do singular e inspirador traço inventivo do grande mestre.  Já no concerto de Donny McCaslin, realizado oito dias antes, era ainda a faceta do exigente jovem compositor que se apresentava ao nosso julgamento e não "apenas" a de talentoso improvisador, uma vez que todo o repertório que lhe ouvimos foi constituído por originais do próprio.

 

A circunstância de estes dois concertos se terem realizado com apenas uma semana de intervalo veio a revelar-se pedagogicamente desafiante para o ouvinte, sobretudo o iniciado, porque se tornou possível colocar quase lado a lado duas formas de encarar o exercício da liberdade no jazz construído sobre estruturas pré-definidas:  aquela que sempre existiu em maior ou menor grau no jazz primitivo, no jazz clássico e nos primeiros e fulgurantes tempos do jazz moderno;  e a liberdade, menos "condicionada", que o novo jazz e seus novos protagonistas hoje nos propõem, sem terem necessariamente de ruminar processos do chamado free jazz, ou seja, do jazz livremente improvisado.

 

Assim, sendo certo que tempos houve  -- por exemplo os de Monk --  em que tínhamos de lidar com estruturas formais muito definidas e rígidas, em termos de sequência harmónica, configuração melódica e consequente extensão em número de compassos, a partir das quais se sucediam ciclos sucessivos de variações improvisadas que adquiriam nos melhores casos o estatuto de novas "composições", porque assumindo lógicas internas totalmente novas e afastadas dos modelos temáticos de partida;  não é menos verdade que, nos dias de hoje, as estruturas com que temos de lidar são infinitamente mais maleáveis, porque rejeitam a estratificação  (em dois ou três modelos-base imutáveis)  das formas de composição, atribuindo-lhes extensões muito variáveis, porque introduzem a sua subdivisão em várias secções  (por vezes conceptualmente antagónicas entre si),  porque estimulam a alternância entre os tempos rítmicos e porque  (no âmbito destes)  estabelecem dinâmicos contrastes entre métricas regulares e irregulares.

 

Escusado será acrescentar que, ao fazê-lo, se gera uma fascinante abertura a múltiplas variáveis de improvisação, para além de possibilidades quase infinitas de combinações, desvios ou justaposições de diferentes enunciados no âmbito melódico, harmónico e rítmico e mesmo de transferências de protagonismo  (quando não de tomadas de decisão e liderança!)  no seio de uma dada formação instrumental.

 

Teve muito mais a ver com o que se descreve neste último parágrafo toda a dramaturgia musical a que assistimos durante o espantoso concerto pelo trio de Donny McCaslin  --  trio de composição insólita e "difícil", porque dela ausente um instrumento harmónico (como o piano), esse lugar de encontro e apoio susceptível de tornar mais explícita uma das componentes fundamentais da arte de compor.  Daí, também, mais uma associação ao disco de Henderson cujo título encima este texto.

 

Reflectindo, afinal, de uma forma simultaneamente harmoniosa e fragmentada, a multitude de sinais hoje afinal endógenos a um jazz capaz de recusar fórmulas únicas e intocáveis e de absorver e integrar as culturas musicais que o rodeiam, como os espécimes populares de origem latina ou do pop-rock de extração urbana  --  a música de McCaslin e seus companheiros revelou-se fascinante na sua diversidade e, nos momentos em que quase se tornava reconhecível e familiar, logo a intervenção deste ou daquele músico nos afastava de qualquer risco de panaceia pela constante introdução de desvios surpreendentes.

 

Tal foi o caso do excepcional Jonathan Blake  (bateria)  nas intrigantes poliritmias de Fast Brazil, nas métricas estonteantes de Recomended Tools ou na forma de esconder de forma apenas parcelar e implícita um vertiginoso e clássico walking que disparou a certa altura, numa resolução de imbatível lógica em Excursion.

 

Enquanto que o porto-riquenho Ricky Rodriguez se movimentou nas suas sete quintas durante todo o concerto, em particular nas peças de influência latina, Donny McCaslin, confirmando-se como um dos mais singulares e inventivos saxofonistas do jazz contemporâneo, foi o centro convergente e divergente de todas as aventuras, modelo da citação com apropósito, versátil nas permanentes movimentações tonais de 3 Signs, impetuoso no solo desvairado e inesgotável de Fast Brazil, clássico no culto do som em Night Gospel ou Margins of Solitude e emocionante na cumplicidade desconstrutiva  (com Blake)  em Recomended Tools e Excursion.

 

Num plano totalmente diverso, Benny Wallace foi o instrumentista de bases seguras e ao mesmo tempo vôos arrojados que bem conhecemos de uma discografia sempre apetecível e de mais esparsas actuações ao vivo, talvez porque tenha dedicado parte considerável da sua carreira ao ofício da escrita para o estúdio e para o cinema.  Tecnicamente dotado e sonicamente potente  -- afastado portanto dos ambientes mais cool de McCaslin --Wallace é capaz de aliar o vibrato de um Ben Webster, ao fraseado angular de um Coleman Hawkins ou mesmo à linguagem estilhaçada pelos largos saltos de intervalos de um Eric Dolphy, características que sempre lhe permitiram exprimir-se, em termos de intensidade, como uma espécie de memória do Swing em pleno jazz moderno e mesmo nas proximidades da vanguarda.

 

Actuando algo debilitado em termos de saúde e com a coesão interna do grupo em parte prejudicada  (quanto a mim)  pela nada mobilizadora actuação de um apenas sofrível Yoron Israel, na bateria, Benny Walace foi de um profissionalismo e de uma entrega à música a toda a prova, jamais vacilando perante o mínimo desencontro ou adversidade musical, antes daí partindo para convictamente nos convocar para uma música absolutamente única:  a de Monk, esse mestre e essa personagem jamais totalmente explicáveis em toda a história do jazz.

 

Apoiado por um culto e prático pianista nicaraguenho  -- Donald Vega, identificado com a linguagem tão especial que se falava em palco --  e estimulado por um contrabaixista como John Hebert, cuja espantosa e desarmante mutabilidade estética já pessoalmente testemunhei em contextos os mais diversos, Benny Wallace esteve caloroso em duas baladas excepcionais  -- Ask Me Now e 'Round Midnight --  dançável em Straight No Chaser, Bye-Ya e Skippy e emotivo em Light Blue e Little Surprises  (a única peça da sua lavra, parafraseando Ugly Beauty),  bastando os solos que Hebert inventou para estas duas últimas peças para lhe conferir o consensual estatuto de que hoje justamente goza na comunidade do jazz contemporâneo. 

 

                                            Fotos:  Silvana Torrinha

 


 

Jazz no Parque

Donny McCaslin Trio

Donny McCaslin (saxofone-tenor)
Ricky Rodriguez (contrabaixo)
Jonathan Blake (bateria)
Sábado, 25.07.09
 

Bennie Wallace Quarteto

Bennie Walace (sax-tenor)
Donald Vega (piano)
John Hebert (contrabaixo)
Yoron Israel (bateria)
Sábado, 01.08.09

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:31
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